Ações do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Avaliação, Educação Popular e Escola Pública (Gepaep)

Um Shazam para chamar de seu

O ano era 2018. O blockbuster Pantera Negra ainda não fora lançado pela Marvel Studios, mas alguns efeitos de representatividade já se faziam sentir com a série Luke Cage, da Netflix — um super-herói negro, homem invulnerável e musculoso, defensor do Bronx, trajado ordinariamente com casaco e capuz, subvertia a imagem padrão do “suspeito” abordado aqui e ali em blitz policiais. Infelizmente, no município periférico de Mesquita, na Baixada Fluminense, a realidade era bem distinta — um aluno chamado pelos colegas de “Baiano”, por conta de sua naturalidade, me contava como fora abordado por policiais enquanto ia à padaria de seu bairro. “Eles encostaram eu de cara na parede, tio” — eles nos chamam de tia/tio, em nossa escola, às vezes até o 9º ano. Passam muito tempo conosco e têm laços quase umbilicais com a escola; tivemos alunos que estudaram conosco por todo o fundamental. Baiano, como Luke Cage, é negro e um rapaz muito corpulento para a idade — aos 14 anos, tinha por volta de 1,80m, ombros largos e cabelos cheios.

“Acho que eles pensaram que eu era grande” — “grande” é o adulto, ainda que fosse, como eu, uma cabeça menor que Baiano. A experiência não foi agradável — ordens ríspidas, revista, perguntas descabidas a um menino que nada mais fazia que caminhar na calçada (“Onde fica a ‘boca’? Está vindo de onde? É do ‘movimento’?!”). Mas o triste é que os meninos, todos, naturalizavam o acontecido. “Já tomei ‘dura’ voltando do campinho”; “Ih, tio, a gente foi tudo revistado voltando do baile”; “Meu irmão teve que tirar o violão da capa e dar na mão do polícia”. Muitos deles pretos ou pardos, todos moradores de favelas e comunidades pobres, estavam acostumados ao papel padrão de “suspeitos”. O programa policial do fim da tarde, na TV, a atuação do policiamento ostensivo em seus bairros, os olhares desconfiados de seguranças de lojas sempre serviram para reforçar essa triste sujeição ao papel. A negritude, em especial a negritude pobre, é fortemente estigmatizada numa sociedade de ascendência escravocrata como a nossa. Que podemos fazer, em nossa hora e meia diária de língua portuguesa, entre objetos diretos preposicionados e predicativos do sujeito, para minorar essa chaga terrível? Nosso quintal é pequeno… mas a terra é feraz.

“Conhecem o Capitão Marvel1, guris?”

Um dar de ombros aqui, um balbucio ali. Explico a todos: “É um moleque pequeno, de seus 13, 14 anos, que grita uma palavra mágica — SHAZAM — e ganha superpoderes. Fica sábio como Salomão — isso, o rei da Bíblia! —, forte como Hércules, vigoroso como Atlas, poderoso como Zeus, corajoso como Aquiles e rápido como Mercúrio!”

Eles começam timidamente a prestar atenção, pois gostam de histórias de super-heróis. Em nosso antigo currículo, antes da BNCC, os mitos eram apresentados no primeiro trimestre do sétimo ano aos meninos, e eu já tinha despejado apaixonadamente todos estes absurdos sobre eles — os velhos mitos gregos, já tão conhecidos de todos, e os mitos africanos — apaixonantes como todos, mal compreendidos como nenhum outro.

“Tá amarrado! Isso é macumba!”

“É não, menino! Mire-veja: macumba é instrumento musical…”

“Mas Oxalá, Oxum, esse povo…”

“… São divindades da mitologia africana. Tão inofensivos quanto o Thor, que vocês acham tão legal.”

E conheceram muitos — o inefável Olorum, o sagaz Anansi, o tenaz Xangô, a misteriosa Iemanjá. Viram o filme brasileiro Besouro (com pequenas edições, por conta da sugestão mais íntima de romance), cujo protagonista é um capoeirista que recebe favores dos orixás, como o Capitão Marvel recebe dos deuses ocidentais, e luta contra capatazes violentos que tentam subjugar e criminalizar a cultura afro. Besouro não era mais um cara com perfil “suspeito” — Besouro era “brabo”, era bonito, era um super-herói.

“Meninos, chegou a hora de vocês fazerem como os quadrinistas que criaram o Capitão Marvel: a partir das iniciais das divindades nagô que conhecemos, vocês criarão uma palavra mágica que conceda poderes a um super-herói. Ah, os poderes precisam ser coerentes com os orixás escolhidos, certo?”

E pulularam heróis para todos os lados. Todos pretos. Todos com poderes dos orixás. O Super Demolidor, ao gritar “IAXÔ”, ganhava o controle de Iansã sobre os raios, o poder telúrico de Aganju, o domínio de Xangô sobre as tempestades e trovões e a pontaria infalível de Ogum. Violeta, com seu grito de guerra “AOÔ” se torna senhora das pedras, como Aganju, e dos rios, como Oxum, além de ganhar o controle sobre a saúde e a doença, como Omolu. Os orixás não estavam mais “amarrados”, demonizados: estavam livres para povoar a imaginação de meninas e meninos, muitos deles pretos, orgulhosos de sua ancestralidade.

“Tio, minha mãe bem é de candomblé, sabia?”

“Não sabia” — respondi. As crianças, amontoadas e discutindo seus próprios super-heróis, fazem uma pausa. Uma delas, frequentadora de uma igreja neopentecostal, perguntou: “E como é?”

“Ah, normal.”

E como deveria ser, a resposta bastou.


1Hoje, o super-herói se chama Shazam, como a palavra mágica que lhe concede superpoderes.

Renato Simões

Dezembro de 2021

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